Autismo Adulto Nível 1 de Suporte – O Paradoxo Contemporâneo
Por Fatima de Kwant
Holanda, 5 de junho, 2026.
Durante décadas, o autismo foi descrito nos manuais psiquiátricos como um transtorno grave do neurodesenvolvimento, identificado como autismo infantil ou autismo clássico. Esses quadros eram caracterizados por prejuízos significativos e observáveis na comunicação social, no comportamento e na autonomia funcional, frequentemente acompanhados de comorbidades neurológicas e psiquiátricas.
Além do autismo clássico, o DSM‑IV incluía o Transtorno Invasivo do Desenvolvimento sem outra especificação (TID‑SOE), destinado a indivíduos com manifestações atípicas ou incompletas. A Síndrome de Asperger, por sua vez, descrevia pessoas com prejuízos sociais e comportamentais semelhantes, porém com inteligência dentro ou acima da média e sem atraso significativo de linguagem. Para muitos pesquisadores, tratava‑se de uma variação fenotípica dentro do mesmo contínuo autístico.

Da fragmentação ao espectro
A publicação do DSM‑5, em 2013, consolidou essas categorias sob o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA), introduzindo o conceito de espectro e classificando os indivíduos por níveis de suporte (1, 2 e 3). Essa mudança ampliou a compreensão clínica e social do autismo, permitindo reconhecer perfis antes negligenciados — especialmente adultos com manifestações sutis, alta capacidade de camuflagem e histórico de sofrimento psicológico não explicado.
O diagnóstico tardio tornou‑se mais frequente, sobretudo entre mulheres e pessoas com inteligência elevada. Muitas passaram a compartilhar suas experiências em redes sociais, palestras e pesquisas qualitativas, contribuindo para uma compreensão mais profunda do autismo vivido internamente — um campo que antes permanecia invisível.
Entretanto, o aumento expressivo de diagnósticos no nível 1 de suporte gerou inquietações dentro da própria comunidade científica que estruturou o conceito de espectro.

O espectro estaria “colapsando”?
Estudos internacionais mostram que a prevalência de autistas nível 3 permanece relativamente estável (20% a 30%), com diagnóstico majoritariamente infantil. Já o número de diagnósticos no nível 1 cresce de forma contínua, especialmente na vida adulta.
Esse fenômeno levou alguns pesquisadores a questionarem se haveria superdiagnóstico ou ampliação excessiva dos critérios. Uta Frith, uma das figuras centrais na história da pesquisa em autismo, afirmou recentemente que o espectro estaria “colapsando”, reacendendo debates sobre a legitimidade do chamado “autismo funcional” e sobre a suposta banalização diagnóstica.
No Brasil, declarações do neuropediatra, Salomão Schwartzman, em rede nacional, reforçaram essa preocupação. Suas falas dividiram opiniões: autistas adultos se sentiram invalidados, enquanto parte das famílias de autistas com necessidades intensas concordou com a crítica.

“Diagnóstico demais” ou “reconhecimento de menos”?
A controvérsia central é complexa:
autistas nível 1, com alta funcionalidade aparente, devem ou não ser reconhecidos como autistas?
E, sendo autistas, são ou não são pessoas com deficiência?
Se não forem considerados autistas, como nomear um conjunto consistente de características atípicas — sociais, comportamentais, sensoriais e cognitivas — que impactam a vida diária e exigem adaptações e suporte?
Para muitos adultos diagnosticados tardiamente, o laudo não é um privilégio, mas uma explicação estruturante que permite acesso a direitos, terapias e condições mínimas de saúde mental.
“Passei décadas sendo excluída da escola, das festinhas, do trabalho. Fui chamada de preguiçosa, dramática, grossa, bipolar. Aos 41 anos, uma psicóloga sugeriu avaliação para autismo. Recebi o laudo um ano depois. Agora dizem que sou mentirosa e quero ser autista para lucrar… lucrar o quê? Nunca mais volto para o armário que me sufocou por quatro décadas.”
Isabela M. (43), autista diagnosticada tardiamente

Direitos, necessidades e equidade dentro do espectro
O TEA é reconhecido legalmente como deficiência, mas a heterogeneidade do espectro torna essa classificação desafiadora quando se trata de políticas públicas. As demandas de autistas nível 3 — que incluem dependência intensa, múltiplas comorbidades e necessidade de supervisão contínua — diferem das demandas de autistas nível 1, que lutam por saúde mental, empregabilidade, acessibilidade sensorial e reconhecimento.
Ainda assim, todos necessitam de suporte.
A vulnerabilidade pode ser visível — como ausência de fala, agressividade, epilepsia, deficiência intelectual — ou interna, como depressão crônica, burnout autista e ideação suicida, altamente prevalentes em autistas nível 1.
O ativismo responsável precisa reconhecer essa diversidade e evitar hierarquizações que fragilizem direitos. A defesa do espectro deve contemplar inclusão educacional, inclusão social, ambientes acessíveis e saúde integral para todas as pessoas autistas, independentemente do nível de suporte.
A lacuna dos dados epidemiológicos
O Brasil ainda não possui estatísticas oficiais que estratifiquem o autismo por níveis de suporte — um dos maiores entraves para políticas públicas eficazes.
Da mesma forma, estudos internacionais recentes indicam que não há estimativas globais consolidadas por nível. O Global Burden of Disease Study 2021, publicado no The Lancet Psychiatry (2024–2025), reúne os dados epidemiológicos mais atualizados, mas ainda sem essa estratificação.

Jornalista pesquisadora do Transtorno do Espectro do Autismo
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